Ricardo Camarano - As peles da cor

As peles da cor

por KÁTIA CANTON

"Mas para cada epiderme seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo... A um desenho colorido ou abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível. A pele vira porta-bandeira, quando porta impressões." - Michel Serres

Eis que a produção de Ricardo Camarano virou uma espécie de pele. Uma pele colorida e viva, que se desgasta pela ação da mão. Uma pele que engrossa e que depois sofre feridas, de cortes e raspagens, e que se acumula em sobras. Uma pele, ainda, que se desdobra e se abre para fora, por sobre a superfície da tela e que também se redobra e se curva para dentro, virando pequenas esculturas, que são como pequenas pedras ou órgãos.

Esse jeito singular de trabalhar tomou corpo lentamente.

Há muito tempo que o artista buscava na natureza a grande referência para a criação de sua obra. Primeiramente ela era desenhada, pintada e se materializava através da representação. A operação da arte, assim, acontecia de fora para dentro, a partir da observação.

Na passagem do tempo, demarcada pelo confronto com paisagens magníficas e a constatação de que a própria natureza seria a obra de arte suprema, a representação tornou-se para ele uma forma de redundância.

Afinal, na percepção do artista, nenhuma construção estética poderia dar conta de reproduzir aquela grandeza de expressão do sensível.

A construção voluntariosa da forma finalmente cedeu a um outro procedimento plástico e a uma outra relação de afetividade com a matéria da arte. O artista passou a utilizar então um concentrado, disciplinado e terno "deixar acontecer".

Não que este artista brasileiro, radicado em Paris, tenha optado por uma arte que se traduz num simples jogo com o acaso. Na verdade, Camarano faz uso de um "deixar acontecer" apenas na maneira como atribui densidade às suas peles, isto é, no modo como envolve as superfícies de suas telas de linho com camadas e mais camadas de cores.

As cores se acumulam na ação do trabalho constante das mãos que deslizam os bastões, um sobre outro. Assim elas escorregam, se somam, se escondem umas sobre as outras.

A partir daí, a grande pele densa, repleta de dermes de diferentes cores, escondidas sobre a superfície mais recente está pronta para responder a um trabalho de rotina, paciência e, sobretudo, precisão de uma ação cirúrgica, feita de cortes e raspagens.

Trata-se, mais do que isso, de uma forma de prece.

Explico: Ricardo Camarano se equipa de facas e goivas e, aos poucos, num mecanismo repetitivo e constante, vai desgastando, erodindo suas peles de cor em gestos circulares constantes.

Essa circularidade parece emprestar o tom hipnótico dos rituais religiosos, que buscam chegar a uma pureza de sentidos, a um esvaziamento de pensamentos pré-determinados, a um silêncio pleno de encantamento.

As mãos do artista trabalham e rezam essa reza feita de um ritmo orgânico, disciplinado, constante.

Todo o passado, constituido de um acumulo de cores e textura do bastão a oleo, vai sendo revelado nas crostas, nos pedaços, nas texturas que caem. São como as feridas que cicatrizaram. Sobra a grande pele, marcada por tantas camadas e cores, e sobram as peles dos restos e das cicatrizes, que se aglomeram agora em acumulos escultóricos.

Há ai uma junção de tempos. Mescla-se um passado-presente que se transforma então num devir-natureza muito própria desse artista, que sempre a perseguiu.

Camarano, assim, produz um tempo fora do tempo, expressão criada pela pensadora Jeanne Marie Gagnebin, ao referir-se ao Tempo Reencontrado, último volume da obra de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido:

"...o presente não é somente ponto de inflexão indiferente entre o antes e o depois; e o passado não é simplesmente algo encerrado e morto. Em seu encontro recíproco, ambos, passado e presente, assumem uma intensidade sensível que lhes outorga novamente aquilo que parecia perdido: a abertura sobre uma dimensão desconhecida, a abertura sobre o possível..."

Com seu mecanismo pictórico, Camarano inaugura a dimensão de uma natureza inventada, feita de peles, pedras, órgãos, cascas, tudo estranha e magicamente colorido, repleto de veios e desenhos.

Em seu procedimento artístico, o que ele almeja não é pouco. O que o artista deseja é uma junção entre passado e presente, entre natureza e cultura, entre matéria e espiritualidade, entre a carne da pele e a alma da síntese.

Ao mesmo tempo, o que ele procura é um processo de simplicidade extrema, que busca ir ao encontro do início da arte, de seu mecanismo primordial de existência.

Algo como o que diz o poema, que Manoel de Barros escreve em seu Livro sobre Nada:

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.
(p.47)
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