Ricardo Camarano - Arqueólogo de sua pintura

Arqueólogo de sua pintura

por NICOLE VITRIER

A tela é lisa, como se fosse lustrada. Ela irradia, mas não brilha. Ao contrário. Ela é doce tanto ao olhar quanto ao toque. É uma rocha polida pelo tempo, erodida pelo vento, mar e chuva. É a natureza que empresta estas cores. Tudo começa com o depósito dos sedimentos, camadas sucessivas, imperfeitas, aparentemente imperfeitas. O processo na realidade é tão lento e complexo que desafia a análise. E, aliás, quem realmente deseja compreender? A matéria se agregou com a matéria, enquanto que ao mesmo tempo a erosão interage em um movimento não contrario, mas complementar.

E é deste processo natural que Ricardo Camarano se inspira e constrói sua técnica quando realiza estas telas sobre as quais ele representa "as imagens que vemos sobre as coisas", como diz ele mesmo tão simplesmente. Ele também cobre sua tela de uma camada que deverá em seguida desaparecer para deixar somente o rastro de sua passagem. É um trabalho, sobre o tempo, um diálogo entre a matéria espessa e a memória lisa, que já existiam antes, profundamente entranhadas e que farão parte novamente, logo reconhecidas sem nunca haverem sido, não verdadeiramente, se não sob forma de intuições fugitivas ao limite da consciência.

Cores que escondem cores. O pintor se faz arqueólogo. Ele escava, ele revela , como a procura de uma antiga cidade. Ele retira sua obra da matéria, repetidamente subtraída de sua própria tela, começando por um depósito sucessivo de camadas colocadas e retiradas... e enquanto ele escava sua tela, ele recupera a matéria que, na natureza não saberia se perder, mas transformar-se em uma outra.

A pintura se faz então escultura, ela toma vida sob uma nova forma e com ela, ao lado, a margem continua a participar de toda a obra.

Agora o que resta ao artista é simplesmente desaparecer. Ele apaga cuidadosamente todo rastro de sua passagem, para deixar uma pintura à flor da tela. Obra de ninguém. Suprema ambição.


A escultura dos fragmentos

Ao longo das costas rochosas nascem ao fio dos tempos, sob a ação conjugada das ondas, do vento e da chuva, formas, frutos de um acaso improvável. Dentro de um fluxo incessante, novas figuras aparecem segundo um processo infinitamente lento de degradações dos relevos, enquanto que, ao mesmo tempo, se opera a fundição das matérias arrancadas, pouco a pouco transportadas e acumulada s dentro de uma outra dimensão.

O artista não procede de outra forma, ele mesmo erode sua tela e com os fragmentos desta matéria produzida e acumulada ele faz nascer uma forma coerente, passando de uma obra lisa a uma obra em relevo.

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